Sexta-feira, Novembro 30, 2007

Avaliando outros investimentos como se fossem opções

Digamos que você não sinta a menor atração pelo mercado de opções. Mas ainda assim é útil pensar alguns tipos de investimento como se fossem opções.

O exemplo canônico é uma empresa em situação falimentar, com patrimônio líquido negativo. Parece absurdo as ações ou quotas de uma empresa assim terem valor. Mas têm.

A razão é a seguinte: quem compra uma ação, tem responsabilidade limitada. O valor da ação pode bater em zero, mas um acionista nunca vai ser obrigado a colocar mais dinheiro em cima para cobrir o patrimônio negativo. (É por isso que existe o processo de falência; é basicamente um calote abençoado pela lei).

E é exatamente assim que uma opção funciona: quem detém uma opção, pode perder no máximo o prêmio que pagou. Mas pode ganhar muito, ainda que a chance seja pe É por isso que ações e quotas equena. Da mesma forma uma empresa falimentar pode achar um comprador, ou pode se levantar, ou talvez consiga pagar as dívidas vendendo todos os seus ativos e ainda sobre um troquinho.

Assim, podemos inclusive calcular o valor de tais empresas falimentares usando Black & Scholes. Mas para usar B&S precisamos saber quanto tempo a empresa ainda tem.

A principal diferença entre a ação falimentar e a opção é que a opção tem data para ser exercida ou virar pó. Uma empresa falimentar normalmente tem vários anos de horizonte. Naturalmente, uma data crítica como julgamento da falência pode ser tomada como "a hora da verdade" para a ação-opção.

Outro tipo de ativo que se presta bem à avaliação como opção, é a concessão de mineração. Como o leitor talvez já saiba, todo recurso do subsolo pertence ao governo, o que ele dá é uma concessão por tempo determinado.

Então: se eu tenho concessão de duas minas: uma concessão acaba em 2 anos, a outra acaba em 20. A possança (conteúdo estimado) das minas é a mesma, e eu consigo tirar tudo da mina em 2 anos mesmo. Qual delas vale mais?

Você está vendo aí os preços do petróleo, do ferro etc. subindo. E tudo indica que vão continuar subindo, considerando o muito longo prazo. A mina de 2 anos, eu preciso extrair e vender tudo agora, ao preço que me oferecerem. Por outro lado, a mina de 20 anos eu posso deixar lá em banho-maria, extraindo apenas quando os preços estiverem lá na estratosfera.

Então obviamente a mina com 20 anos de concessão vale mais, embora tenha a mesma possança da outra. Mas os métodos normais de avaliação falham nesse quesito; eles vão considerar o preço atual do ferro, multiplicar pela possança e era isso. Para dar o devido valor ao tempo, preciso pensar nesse ativo como se ele fosse uma opção.

Na verdade, se sonharmos alto o bastante, absolutamente todo ativo pode ser tratado como uma opção. Como foi dito antes, uma ação é de certa forma uma opção, pois o possuidor de ações nunca vai ter de "pagar por cima" em caso de falência.
blog comments powered by Disqus