Domingo, Janeiro 18, 2009

Tomando remédio de doido

Como diz a minha mãe, "a língua é o chicote da bunda". Depois de criticar outros depressivos, cá estou eu, tomando anti-depressivos também, faz alguns meses. Agora, sentindo-me muito melhor e na fase de diminuir a dose para largar o remédio definitivamente, talvez minha história interesse a alguém.

É curioso, mas vou ter de contar esta história de frente para trás, pois é uma jornada de introspecção, que começou em agosto de 2008. O projeto em que eu estava trabalhando me desagradava profundamente, tanto pelos problemas inerentes a ele quanto pelo pouco que eu estava conseguindo produzir e agregar. Eu me sentia tão inútil que, quando ia ao escritório da empresa em que trabalho, achava que todos me olhavam como um pária, uma relíquia obsoleta da "turma da Conectiva" que tinha sido contratada em 2005. Não há nada mais desagradável para mim do que não merecer o salário que ganho, de modos que pedi demissão. Meus planos eram tirar umas férias longas e depois voltar a trabalhar com sistemas ERP. Decerto para isto eu ainda servia.

Meu gerente achou isso um tanto exagerado, e aconselhou-me a procurar um psiquiatra. E assim eu fiz. Confesso que meu primeiro objetivo ao ir no médico era conseguir uma licença, mesmo não remunerada. A única coisa que eu queria era fugir do projeto, não importava a que custo. Por outro lado, tinha medo do estigma de preguiçoso-que-arruma-atestado-médico, talvez o próprio psiquiatra fosse me xingar ou algo assim.

Bem, primeiro que foi UMA psiquiatra, e logo na primeira consulta ouvi bastante coisas bem encorajadoras. Que gente que trabalha com informática aparecia ali aos montes sofrendo de stress, mas que era um problema perfeitamente tratável. Que era interessante medicar o problema com um anti-depressivo, e que os efeitos colaterais que a Wikipedia atribui a esse tipo de remédio são na verdade raros. O efeito colateral que mais me preocupava era a impotência; eu já estava meio devagar na área sexual; se piorasse as coisas um pouco mais, ia acabar sendo abandonado pela patroa :)

No trabalho, usei meu estoque de férias para tirar uma folga e me livrar do "projeto maldito". Comecei a tomar Cymbalta 30mg, receitado pela psiquiatra. Desenterrei um livro que eu nunca tinha lido direito antes, "Shadow Syndromes", onde muitas correlações entre stress e depressão são apontadas. Comecei a estudar meu problema ao invés de tentar fugir dele.

Apesar de tomar 1/4 da dose máxima, o Cymbalta fez efeito rápido comigo. Na verdade, você não nota efeito algum (só senti um enjôo no primeiro dia de uso), o que talvez leva tanta gente a pensar que é um placebo. A única (grande) coisa é que a ansiedade desaparece, e você começa a enxergar tudo e todos segundo uma outra perspectiva.

No meu caso, eu devia estar tão desacostumado a não sentir ansiedade, que de repente o mundo começou a parecer cor-de-rosa. Com o tempo, depois de uns 3 meses, acostuma-se novamente com o nível baixo de de "ansiedade contínua", e volta-se a sentir ansiedade -- quando é necessário sentí-la.

Na segunda consulta, discutimos sobre o tempo de férias/licença que eu deveria ter, e fiquei surpreso quando a psiquiatra disse que bastaria um mês. Considerando uma experiência anterior onde sofri de stress e levei quase um ano para me recuperar, pareceu-me que não estavam querendo me dar folga. Mas é claro, desta vez eu estava sendo medicado. Quem sabe isto faria diferença.

E como fez diferença. Umas duas semanas depois de ter entrado de férias, eu já estava louco para voltar a trabalhar (não no projeto maldito, mas qualquer outra coisa). De férias e com a ansiedade artificialmente removida pelo remédio, comecei a perceber que o trabalho não era meu único problema. Talvez nem mesmo fosse "o" problema.

Primeiro, lembrei que na época que pedi demissão, eu estava me achando um lixo para outros aspectos da minha vida também. Por exmeplo, eu tinhe negligenciado completamente meus investimentos em ações (justamente na época em que houve a Grande Queda da Bolsa) e estava achando meu recém-escrito livro uma droga. Agora, estava tudo parecendo mais róseo novamente. Como diria o Capitão Óbvio, "a visão depende de quem vê". Era incrível como uma mesma situação podia ser percebida como derrota ou vitória dependendo apenas do ponto de vista, influenciada pelo estado emocional.

Segundo, descobri que minha esposa estava sendo uma fonte de muito stress para mim. Eu já desconfiava da anormalidade de algumas atitudes dela, mas, por sempre ter sido ansioso, acabava concluindo que era implicância minha. Agora, sem ansiedade e sem trabalho (que tinha levado a culpa até então), eu vi com foco perfeito o quanto a Ana era reclamona e dependente. Depois de um quase divórcio e muitas conversas, a Ana tem se controlado nestes aspectos da personalidade dela. Assim como eu, ela também está sendo forçada a introspectar.

Uma conseqüência "ruim" de tomar antidepressivos e não sentir ansiedade, é que você começa a enxergar todo mundo como louco. Cada pessoa com quem você fala, você já identifica nela alguma doença mental: depressivo, bipolar, autista, psicótico, esquizofrênico. A Ana, eu imaginava que sofresse de distimia; suposição que logo estendi a todas as mulheres. Por uns tempos, eu compreendi perfeitamente as razões dos machistas (não parecia fazer sentido respeitar as mulheres porque são todas loucas mesmo).

Conforme me acostumei com a não-ansiedade, essas impressões foram sendo aprimoradas para meios-termos mais equilibrados. Hoje, continuo pensando que de fato todo mundo é um pouco louco, mas existe uma faixa de tolerância, aquém da qual o sujeito é considerado normal (talvez um pouco excêntrico), e além da qual ele é considerado doente e precisa tratar-se.

Mas quem define esta tolerância? A sociedade na qual o indivíduo está inserido. Portanto, uma mesma pessoa pode ser considerada louca sob uma cultura, e normal sob outra. Antigamente, os epilépticos eram considerados prediletos dos deuses e videntes. Até mesmo num mesmo lugar, diferentes classes sociais toleram de formas diferentes cada esquisitice. Uma criança pobre com déficit de atenção passa por normal, "só não quer estudar" (como o moleque do Tropa de Elite que era míope mas passava por relapso). Já uma criança de classe média vai ser imediatamente tratada se tiver sintomas de ADD, talvez sem necessidade.

E naturalmente, o dimorfismo sexual do ser humano estende-se ao cérebro, o homens e mulheres são um pouco loucos de maneiras diferentes, de modo que cada um sempre veja o sexo oposto como maluco. Eis a armadilha de lógica na qual eu tinha caído antes.

Lembro de ter discutido longamente essas e outras com a psiquiatra. Por exemplo: tem pessoas por aí que vivem na pindaíba, apesar de não serem especialmente azaradas ou burras, muitas vezes nem mesmo preguiçosas. Por algum motivo, elas conseguem arruinar tudo, até um copo de café à sua frente. Por que elas são assim? Doença mental ou livre-arbítrio? Onde fica o livre-arbítrio se cada um tem a personalidade moldada pela versão "light" de uma doença mental, ou várias? Se considerarmos que o sujeito tipicamente rotulado de "burro" ou "devagar" é na verdade um leve retardado mental, a coisa fica cada vez mais embolada.

Ainda nesta linha, é interessante que a minha psiquiatra nunca se importou com o meu jeitão Asperger. Para ela, isso era ortogonal a meu problema de ansiedade, e Asperger caía dentro daquela "faixa de tolerência" onde uma característica não deve ser considerada doença mental. Uma desculpa a menos para não procurar ser uma pessoa melhor.

O remédio é importante não porque ele resolva os problemas, ou porque traga felicidade, mas porque remove uma variável do problema -- a ansiedade, e possivelmente a falta de prazer em fazer as coisas. As férias do trabalho também foram importantes porque removeram mais uma variável, e assim você constata que os problemas são outros, diferentes dos que você imaginava lhe incomodavam. Como disse a psiquiatra, o objetivo é você redescobrir como realmente é, para depois poder continuar a sê-lo sem a ajuda química.

E é claro, eu não fiquei estressado/depressivo/whatever por culpa da minha esposa. As sementes do problema tinham sido plantadas muito, muito antes. O que potencializou o problema foi o volume de mudanças e acréscimo de responsabilidades: morar sozinho, depois casar e ter de conviver 24x7 com uma pessoa completamente diferente, depois ter filho. Mas potencializar é diferente de causar.

Meu primeiro "ataque de stress", que teve características semelhantes a este de 2008, aconteceu em 2003, por conta de problemas com um cliente. Como eu não procurei tratamento, achando que o problema ia passar sozinho, levei vários meses para ficar razoavelmente recuperado, e na verdade eu sempre achei que depois disso minha cabeça nunca tinha ficado 100% ok. Estava 99%, mas não 100%. Agora, eu posso dizer que está 100%.

Eu sempre coloquei a culpa do episódio no tal cliente, mas certamente eu poderia ter tomado uma atitude mais firme e simplesmente ter mandado ele pastar. Possivelmente eu já estava sensibilizado antes. Olhando ainda mais para o passado, em 2001 eu saí da Conectiva e voltei para a malharia em que eu já tinha trabalhado nos anos 90. Só que essa malharia foi vendida pouco depois, para um grupo de "saqueadores" que roubaram todo o ativo circulante e depois devolveram a empresa ao dono ("ela tem muitas dívidas, não queremos mais"). Foi bem na época das Torres Gêmeas.

Acho que este evento foi o "abalo primeiro" porque eu voltei à malharia na intenção de construir uma vida segura, já que a Conectiva estava com problemas sérios na época. Só que "meu mundo caiu". Depois do episódio na malharia, vieram as Torres Gêmeas, a recessãozinha econômica (que sempre afeta de modo muito forte o setor de informática), e as coisas foram se sucedendo.

Não me considero um depressivo típico porque a depressão é a ausência de prazer, e eu nunca deixei de ter prazer em realizar determinadas atividades. Por exemplo, em 2003 eu não conseguia trabalhar com código C++, mas conseguia dar aula e cuidar do meu mestrado. Mas provavelmente eu estava a caminho de ganhar uma depressão full-fledged.

A depressão é causada pela falha do mecanismo de prémio/punição que nos move a todos. É a história do burro e da cenoura: o burro corre atrás da cenoura, que está pendurada num caniço seguro pelo cavaleiro. Mas, se o burro nunca come a cenoura, ele fica frustrado e pára de correr. Frustração é um sentimento normal e benéfico, para fazer a pessoa parar de dar murro em ponta de faca. Mas quando a frustração acomete a todo e qualquer ato da pessoa, sobrevém a depressão; a pessoa não faz mais nada porque nada parece valer a pena. Não deixa de ser um mecanismo de defesa do cérebro.

Mais três considerações sobre a coincidência entre esse caso da malharia e as Torres Gêmeas:

1) Na verdade não é coincidência nenhuma. O mundo entra em recessão econômica, e automaticamente os espertalhões começam a praticar crimes alavancados no desespero e ganância dos outros;

2) Episódios com o 11/9 afetam absolutamente todo mundo e todos, portanto imagine quantas pessoas foram e ainda são mentalmente afetadas pelos acontecimentos da época;

3) Seria injusto e absurdo afirmar que os anos 00 foram minha década perdida. Por outro lado, é forçoso constatar o quanto a gente pode sub-utilizar uma década inteira por conta de um problema mental latente.

Muito bem. Em novembro, voltei a trabalhar, com aquele frio na barriga mas curioso para saber como eu mesmo ia reagir. Voltei a trabalhar no mesmo "projeto maldito". E -- surpresa -- agora não é mais maldito, agora eu sinto enorme prazer em mexer com a mesmíssima coisa, a ponto de ter de me controlar para não dedicar tempo excessivo ao trabalho e negligenciar a família e o lazer. Este é o EPx padrão...

Observações aleatórias

* Uma coisa é certa: quem é pobre e tiver problemas de depressão ou assemelhados, está ferrado. O meu plano de saúde 5 estrelas não tinha absolutamente nenhum psiquiatra conveniado na minha cidade, e os remédios também são bastante caros. Considerando consultas e remédios, o tratamento custou em média R$ 250/mês.

* Bem antigamente, na melhor tradição nerd, meus computadores tinham nome de mulheres. De 2003 a 2008, eram nomes dos integrantes do Village People (cumprimentos ao Toti e ao Rudá). Agora, são nomes de remédios pra louco. Eu agora estou tomando Lexapro, mas "Cymbalta" ainda soa mais bonito, além do que a caixinha e as pílulas são mais bonitas. E a lembrança de ver o mundo cor-de-rosa nas primeiras semanas do Cymbalta ainda me faz sorrir. Assim, o iMac ganhou este nome.

* Da última vez que cheguei na farmácia para comprar o Lexapro, eu estava com muita sede e com calor, e estava tremendo um pouco. Aí entreguei a famigerada receita controlada para o farmacêutico com a mão tremendo. Que vergonha... o cara deve ter pensado "esse aí é louco mesmo, tá em síndrome da abstinência...". Teria passado menos vergonha comprando Viagra ou KY.
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