O primeiro meio de transporte individual, que deu mobilidade inédita às massas, foi a bicicleta.
Pouca gente sabe, mas o impacto social da bicicleta foi enorme: permitiu coisas como trabalhar (ou arrumar uma esposa) na cidade ao lado, coisas que à pé são impossíveis de fazer. Em termos relativos, foi um passo mais largo do que o proporcionado pelo automóvel -- afinal, trens e navios já transportavam cargas e pessoas por distâncias mais longas.
Outro aspecto pouco conhecido da bicicleta foi o impacto social da sua construção e manutenção. Muitos países que hoje têm tradição em mecânica pesada, começaram fabricando peças de bicicleta.
E algo semelhante parece estar acontecendo no transporte elétrico. Enquanto os automóveis elétricos continuam muito caros e muito raros, já é possível adquirir uma bicicleta elétrica por R$ 1500,00. E nem precisa de carteira de motorista.
A bicicleta é uma "cobaia" muito mais apropriada para eletrificação, por ser leve, barata e despretensiosa. Se um motor elétrico adaptável à bicicleta alivia em 20% a carga do ciclista, já é um produto interessante que atrairá compradores e financiará o desenvolvimento da próxima geração, que aliviará a carga em 40% (hipoteticamente falando). E assim por diante.
Por outro lado a expectativa em cima do mítico carro elétrico é excessiva: todo mundo quer um automóvel não-poluente que consiga fazer de 0 a 100 em 10 segundos, e consiga andar por horas a fio em alta velocidade. Não há caminho incremental, e no fim das contas o carro elétrico "ideal" fará o que um automóvel comum faz hoje muito bem. E ninguém vai comprar pois será muito mais caro.
No fim das contas, querer um carro elétrico idêntico em todos os aspectos ao carro à combustão é uma forma esperta de "matar" a idéia. A eletrificação do transporte individual, quando acontecer, implicará em mudanças de paradigma.