Sempre que vou ao supermercado e passo um lote inteiro de fraldas, mais uma tonelada de leite em pó, brinco com o(a) atendente do caixa. Eu pergunto: "Você já tem filho?". A maioria responde que não. Aí eu aponto para as compras e digo "então pense muito bem antes de ter, porque é um brinquedinho caro".
Criar filhos é caro e complicado. Às vezes parece que hoje em dia é mais difícil dada a pressão social (particularmente na classe média) em dar o "melhor" para os filhos, onde o "melhor" define-se por "sua possibilidade real mais seu cheque especial mais um". Mas é só uma impressão; manter a prole sempre foi difícil, e em muitos aspectos era mais difícil fazer isso antigamente do que hoje.
Fico imaginando como o homem pré-histórico se virava. Ok, nem é preciso pensar tão longe; basta imaginar que há um século a agricultura não era mecanizada e a maioria vivia na zona rural. Uma geada, um granizo, uma seca inesperada, e você estava em risco real e imediato de passar fome. Pensando nisso, dou graças a Deus de viver numa época mais agradável, num cantinho agradável de um país agradável.
Às vezes a vida seria mais simples sem casamento e filho, mas olhando de outro ponto de vista, seria uma forma suprema de egoísmo; aproveitar a vida, exaurir DNA, cultura e esforços deixados pelos antepassados. E o resto da humanidade que vá ter filhos para pagar minha aposentadoria.
Se for ver direitinho, incontáveis gerações de pessoas sacrificaram-se, sem falhas na cadeia, para que pudéssemos estar aqui reclamando do preço das fraldas... É no mínimo uma questão de gratidão passar o favor adiante, e no futuro creio teremos orgulho de ter feito parte da corrente.
Além do óbvio esforço em criar os filhos, o fato é que o ser humano despende enorme esforço na reprodução, antes mesmo de ela acontecer. Grande proporção de nossa cultura, nossos hábitos, desejos etc. têm relação direta ou indireta com sexo, e portanto com reprodução. Pensando nm contexto ainda maior, observo que em TODAS as formas de vida, a reprodução é o que ocupa a maior parte do tempo e dos recursos de cada ser vivo.
Na verdade, a UTILIDADE que associamos à grande parte dos seres vivos é totalmente ligada à sua reprodução. "Uma árvore conhece-se pelos frutos". Nós comemos frutos, cereais (sementes), ovos, leite; todos estes alimentos são subprodutos do esforço de outro ser vivo em se reproduzir. Comer só folha de alface ninguém quer, né? Se cada ser vivo se ocupasse apenas de viver a vida e dedicasse pouco esforço à reprodução, não haveria muito o que comer.
Tem até aquela teoria que trigo, milho etc. que produzem uma quantidade absurda e despropositada de sementes em relação a seu tamanho foram na verdade introduzidos por Deus, pelos Aliens ou até por civilizações avançadas anteriores à nossa, que talvez tiveram de lutar contra a fome generalizada. Claro que esta teoria ignora que tais vegetais produziam pouco e foram domesticados, selecionados e hibridizados, e a produção desses grãos por hectare deve ter decuplicado no século XX. Ainda assim, de um ponto de vista filosófico, é uma consideração interessante.
(E tem aquela outra teoria mais risível, que a vaca é de origem extraterrestre pois ela come capim e fornece carne, exceção notória à regra geral de que a alimentação de um ser vivo depende do esforço reprodutivo de outro. Um amigo meu chamado Osvaldo está desenvolvendo um jogo onde uma vaca revela sua identidade alien para escapar de virar churrasco...)
Espero que nosso fim não seja virar comida para extraterrestres, como naquela série "V -- A Batalha Final".