A Ferrovia São Francisco está quase fazendo 100 anos (ela chegou em Rio Negrinho, ponto inicial do passeio, em 1913), e é preciso demonstrar nossos respeitos. Quem acompanha meu Twitter sabe que estou andando todo dia, e um dos objetivos desse preparo é fazer uma "peregrinação" ferroviária descendo a serra. Dá uns 20, 25km e não vai ser sopa, mas tem que acontecer ainda neste ano!
A passagem saiu um pouco mais barata do que em dezembro, talvez por não ser época de férias. Imaginei que ia dar pouca gente, mas me enganei: quatro vagões lotados, mais de 200 pessoas, como da outra feita. Por ser a segunda vez, por termos chegado cedo e eu não estar sozinho, tive mais oportunidade de reparar em detalhes. Ainda não fiquei enjoado do passeio, as 4h dentro do trem (2 na ida, 2 na volta) passaram como se fosse meia hora.
Como almoçamos logo, tivemos bastante tempo para explorar os arredores, como o interior da igreja católica. Num mesmo quadrilátero estão igreja, escola primária, salão de festas e cemitério, bem aquele esquema antigo. Só faltou o hospital (que em outras cidades está na frente da igreja, basta atravessar a rua) para dizer que o cidadão vive ali do berço à sepultura...
Um detalhe que desta vez percebi, é quão baratas são as coisas vendidas neste passeio. Desde o almoço até as lembrancinhas da ABPF, tudo custa metade ou um terço do que gente mais cosmopolita espera custasse. Ninguém precisa ir para casa sem souvenir por questão de custo, até meu pai abriu a mão desta vez (logo ele, que conseguiu sair de Olinda sem ter comprado absolutamente *nada*). Os turistas disputam ferozmente o que há, deixamos de levar coisas que queríamos simplesmente porque os passageiros à frente tinham comprado tudo.
Desta vez os trens de carga deram o ar da graça. Não tantos quanto eu queria, nem exatamente onde eu queria (na igreja de Rio Natal); mas cruzamos com um na estação de Rio Vermelho (imediatamente antes de descer a serra), e avistei outro já enquanto dirigia para casa, no fim do dia, que deu uma bonita foto mostrada no início deste post. Tanto a partida quanto o retorno atrasaram um pouco devido a este intenso tráfego de carga da safra de soja.
Neste passeio, fiquei no primeiro carro de passageiros, que torna-se o último carro na volta. É menos barulhento e menos fumacento (a locomotiva só trabalha de verdade na volta, subindo). No passeio anterior fiquei próximo da locomotiva na subida, e fiquei cheirando a carvão e enxofre, e para ser bem honesto eu gostei mais :) É interessante usar óculos na subida, em particular se você é do tipo que fica com a cabeça para fora o tempo todo, pois de vez em quando aparece uma fagulha, mesmo estando na cauda. Uma delas pegou na minha mão e ardeu bastante.
É um privilégio ter acesso a um passeio deste tipo, ainda mais tão perto de casa e considerando as pouquíssimas opções de turismo ferroviário/transporte ferroviário regular de passageiros no Brasil. Um privilégio que pode desaparecer a qualquer momento, basta uma mudança de humor nas relações entre as partes envolvidas (ABPF, ALL, ANTT) para que o passeio escasseie ou acabe. Tanto quanto o talento técnico na manutenção e restauração do trem antigo, a manutenção desta convivência com a concessão de carga deve exigir um talento político fora do comum.
A manutenção da ferrovia estava mais em dia do que em dezembro. Aquele som de "esmeril" que os trens fazem quando passam é a flange da roda esfregando na parte interna do trilho, e isto é algo que "não deveria" acontecer; o trem deve manter-se alinhado unicamente pela conicidade das rodas. Em dezembro o trem "esmerilhou" bastante, mas desta vez não lembro se aconteceu mais de uma ou duas vezes, sinal que a geometria está filé. A infinidade de galhos que roçava o trem (um chegou a entrar janela adentro, deixando umas folhinhas de lembrança) foi podada.
Havia um lugar com um desmoronamento "fresco", já devidamente contido, mas era do lado de baixo, a pirambeira era longa e funda, e o conserto era bem recente, de modo que o trem passou beeeem devagar. Todo mundo prendeu a respiração. Foi a maior "emoção" da viagem. Notei que houve poucos trens durante a semana passada (e uma fila de caminhões de vários quilômetros), logo desconfiei de um problema na linha, e pode ser que foi justamente aquele ponto desmoronado.
E é isso aí. As próximas aventuras são: "perseguir" esta mesma maria-fumaça de automóvel, para filmar e tirar fotos do lado de fora; descer o trecho de serra da ferrovia à pé, e visitar umas pontes ferroviárias entre Guaramirim e São Francisco, acessíveis unicamente pela ferrovia (ou de helicóptero :P).