Segunda-feira, Abril 26, 2010

A namoradinha de São Paulo e as ASPides

Como já era previsto, esta campanha presidencial está virando um festival de FUD -- Fear, Uncertainty and Doubt (medo, incerteza e dúvida). Também conhecida no Brasil como a "manobra Regina Duarte".

A sigla FUD está marcada a ferro em brasa na mente de todos aqueles que trabalham com informática, como a política adotada pela Microsoft nos anos 90 para tentar vencer a concorrência. Isso em vez de cuidar do seu quintal, do seu produto. O resultado está aí para todo mundo ver: Google e Apple na boca do povo e na crista da onda.

Da mesma forma, a Namoradinha do Brasil fez escola e a manobra Regina Duarte está sendo aplicada por TODOS os cabos-eleitorais e mesmo pelos simpatizantes.

Como eu disse, o que mais me desgosta na Dilma é o tipo de gente que diz vai votar nela. Como o funcionário da Caixa que fez o seu terrorismozinho em horário de expediente, me dizendo que "a burocracia é grande mas se o PSDB voltar, vai piorar". Os serristas, inventores originais da manobra, também fazem a mesma coisa, largando pérolas como "a Dilma vai fazer isso, vai fazer aquilo, vai botar um pobre no seu apartamento", etc. Nada do que a Dilma tem dito sugere esse tipo de coisa (tirante a grandíssima mancada da regulamentação da profissão de analista de sistemas). O tipo de gente que gosta do Serra, e os motivos pelos quais alegam gostar, também faz desgostar do careca.

E assim os candidatos, e pior ainda, as PESSOAS escolhem seu candidato e votam olhando no retrovisor, "porque não quero isso" ou "porque não quero aquilo", em vez de olhar para o futuro, ver quais as propostas, ver quem vai reduzir a burocracia, quem tem PROJETOS factíveis e interessantes.

E aí, meu povo, vamos olhar a estrada à frente, pra variar um pouco?

Mas eu comecei a escrever este post devido a um outro cacoete interessante, que costuma acometer os neolulistas: o sentimento anti-São Paulo, a que vou atribuir a sigla ASP, para economizar a tendinite.

Já faz um bom tempo que ser ASP é uma moda em determinadas rodinhas, mas agora, com a ajuda do Paulo Henrique Amorim e do Ciro Gomes, duas deusas enlouquecidas, a moda está na rua e foi abraçada com carinho pelo neolulismo.

Eu não nasci em SP, nunca morei em SP, não gosto de ir para lá, jamais aceitaria morar lá por dinheiro nenhum, não tenho nada contra nem nada a favor de SP, só quero distância segura. Por isso, não posso dar uma opinião sobre SP ser um problema ou não para o Brasil. Isso me desqualifica a escrever sobre o movimento ASP, a priori.

Mas, surpresa! Muita gente próxima a mim, ASP ferrenho, está exatamente na mesma situação! Hoje, eu confrontei dois deles. Perguntei o que há de errado com SP.

Eles: "Não somos anti-SP, somos a favor do Brasil"

Eu: "Ok, no que SP prejudica o Brasil?"

Eles: "Err..." (fim da conversa)

Ou seja, o movimento ASP é mais uma dessas modinhas da política, quase uma religião, que as pessoas seguem sem ter a mínima noção do porquê.

Os ASP tartamudeiam alguma coisa sobre "redução das desigualdades regionais". Que SP é rico demais, que os outros Estados também deveriam poder se desenvolver etc. Mas o que está impedindo os demais Estados de andar para frente? Normalmente são eles mesmos, e em segundo lugar o governo federal.

Os ASP não lembram ou fingem não lembrar que SP pode ter um PIB bem grande, mas também está cheio de gente -- uma porcentagem muito grande dessa gente egressa de outros Estados que não deram condições de sobreviência a SUAS próprias populações.

Pelo critério de PIB per capita, SP pode estar um pouco à frente dos demais, mas em IDH perde feio dos estados do Sul. Qualquer um sabe que a qualidade de vida em SP é uma droga.

Outra bronca genérica, nunca explicada direito, dos ASP, é que "paulista é reacionário e não sabe votar". Leia-se: votam no Serra. Geralmente os ASP usam o Paulo Maluf como exemplo de quão mal o paulista vota, e assim consideram que, devido ao peso daquele Estado na eleição presidencial, SP prejudica todo mundo.

Mas vem cá, quem é que vota em tipos como Jader Barbalho? José Sarney? Fernando Collor? Renan Calheiros? Anthony Garotinho? Não são os paulistas. Seria o caso de dar razão aos mlitares, que brasileiro vota mal pra c******?

Curiosamente, todos os tipos elencados aí em cima dão apoio à Dilma. Até o Paulo Maluf, indiretamente (por conta do partido, o PP).

Então, não passa uma rezinga infantil e mal fundamentada contra quem discorda da sua opinião. Isso porque ninguém se deu realmente ao trabalho de provar que o paulista típico é assim tão serrista.

Voltando à questão da desigualdade regional. Buscar igualdade é balela, um objetivo fútil que torna-se PERIGOSO quando o governo usa suas armas para conseguir este intento. Leia-se: FERRAR com quem está um pouquinho melhor. Porque o único jeito rápido de "fabricar" igualdade é este. Não se enganem.

O jeito certo de diminuir desigualdades, que é educando o povo (porque pobreza é algo que está também dentro da cabeça das pessoas, não é meramente falta de dinheiro), preparando o terreno, não querer construir usina nuclear se não sabe nem fazer bicicleta -- esse caminho difícil, porém certo, ninguém se dispõe a trilhar.

Vejamos o caso dos EUA. A Califórnia, considerada isoladamente, tem a sétima maior economia do mundo. Ela só perde de seis países, e quase empata com o sexto do ranking que é simplesmente o resto dos EUA, inteirinho. Alguém aqui duvida que a Califórnia está nesta posição por seu próprio mérito? Can you spell A-P-P-L-E?

O que fazer para diminuir as desigualdades? Mandar os californianos enforcar negros na calada da noite, como fazem no Alabama? Aí fica aquela coisa linda, todo mundo igualmente racista. Imagine all the people... Ou seria melhor que o pessoal do Alabama se educasse, e trocasse as reuniões da Klan por alguma atividade mais produtiva?

Os ASP tentam me atrair com uma isca: "quando falamos de igualdade regional, estamos querendo desenvolvimento para o Sul também". Quem fala isso e mora no Sul é um iludido, ou está sendo pago para falar tamanha bobagem. SEMPRE que se tentou desconcentrar o parque industrial de SP, o Sul levou pau junto. Vide Zona Franca de Manaus.

Para ficar num exemplo recente, a Positivo Informática tinha fábrica no Paraná, o governo paranaense deu isenção de ICMS, porque do contrário é impossível uma empresa deste ramo competir com Manaus e China. Pois bem, quem foi que entrou no Supremo Tribunal Federal contra este incentivo? O governo do Amazonas. E o pior é que ganhou.

Cadê a autonomia das unidades federativas, minha gente? Ao que parece, o governo central nos condenou a plantar soja, e a criar porcos e frangos...

Mesmo os ASP admitem que a Zona Franca de Manaus é o exemplo de como um incentivo NÃO deve ser feito. Incentivo sem prazo, começa por aí o absurdo. Um lugar onde você paga 50 reais por 7km de corrida de táxi. Ou seja, todos os incentivos acabaram no bolso dos espertalhões.

O Ciro Gomes de vez em quando vem com essa de anti-SP. É curioso porque na hora de apresentar propostas concretas, não sai nenhuma que preste. O Ciro é a grande decepção desta campanha: passa por inteligente e perspicaz porque é um reclamão desbocado, mas foi-se percebendo que ele não passa de reclamão e desbocado. O resultado não poderia ser outro: pulou fora da campanha.

Como os ASP são tão fracos, eu mesmo tentei dar munição a eles, citando a única possível coisa real a ser discutida no pacto federativo, em que SP tem vantagem relativa: a forma de cobrança do ICMS.

Para quem não sabe, o ICMS é cobrado pelo Estado de origem do produto. Como SP concentra muitas indústrias, é origem de muito valor agregado, portanto recolhe muito ICMS. Quando uma pessoa de, digamos, Pernambuco compra uma lata de milho verde, e paga 17% de ICMS sobre ela, 5% vão para PE, e 12% para SP, pois 12% é a alíquota para vendas interestaduais.

Esta é, por exemplo, uma fonte de receita que o RJ não tem, porque o petróleo tem regra especial, com ICMS pago no Estado consumidor. É um dos motivos pelo qual o RJ esperneia tanto pela perda dos royalties do petróleo. Geração de energia também paga ICMS no consumidor, e assim o PR não vê a cor do dinheiro da energia produzida por Itaipu.

UPDATE: esqueci de um detalhe, esta repartição do ICMS é teórica, aconteceria apenas se a tal lata de milho fosse vendida sem lucro algum pelo supermercado em Pernambuco. Se o mercado compra a lata por R$ 1 e vende por R$ 2, os 17% de ICMS sobre a diferença vão integralmente para Pernambuco.

Eu não sou conhecedor do assunto, e não posso dizer o que é certo. Genericamente, acho que todo imposto sobre consumo é ruim, e no mínimo deveria ser revertido ao município/Estado de consumo. Por outro lado, produção demanda infra-estrutura.

Mas é claro que esta discussão de alto nível os ASP não são capazes de sustentar, muito menos de me ajudar a dizer qual seria a forma correta de tributar consumo.

E enquanto isso, os demais Estados que têm "déficit comercial" com SP que se mexam, que propiciem a produção local de valor agregado, em vez de ficar invejando o arrego alheio.

Outra possível fonte de anti-paulismo é a relativa hipertrofia da imprensa paulista. Todo mundo lê a Folha de São Paulo, pelo menos na versão on-line, para ficar num exemplo. A Globo tem bases em SP e RJ, o resto é o resto.

Aí entra outro fator engraçado, algo inerente ao ser humano que é o "odio aos grandes". As pessoas esquecem de ler o nome do jornal: Folha de São Paulo. De. São. Paulo, e reclamam quando o periódico de alguma forma privilegia SP.

Pelo fato de ser o melhor jornal em circulação e ser lido por todo mundo, qualquer bias pró-SP é ardorosamente criticado. Aí entra o "ódio aos grandes". A Folha de São Paulo não pode ser parcial kra!!!! ... mas se o Diário de Pernambuco ou A Crítica do Maranhão forem parciais, então tá tudo bem.

Isto é até uma coisa natural, instintiva, é o tipo de sentimento que leva as pessoas a apedrejarem Google e Apple pelo simples fato de serem o que são, sem que efetivamente eles tenham cruzado o caminho do sujeito.

Porém:

a) lugar de instinto é na alcova e no livro de biologia;

b) uma coisa é o cara "do povão" ter ódios infundados contra corporação A ou B. Outra coisa é gente do governo, ou postulante a governo, basear seu discurso ou suas ações nesse tipo de criancice.

c) cabe ao leitor filtrar o bias pró-SP que um jornal "de São Paulo" obviamente tem. Para mim, isto é automático.
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