Domingo, Junho 20, 2010

Peregrinação no Rabo do Macaco

Ontem foi um daqueles raros dias na vida em que a) tudo dá absolutamente certo, e b) o tempo não passa voando.

Depois de vários adiamentos, saiu a "peregrinação" pela estrada de ferro São Francisco, mais especificamente na serra do Rio Natal (São Bento do Sul/SC), e ainda mais especificamente num trecho denominado "Rabo do Macaco", devido a sua sinuosidade. Infelizmente o Felix não tem idade para ir nessas roubadas^Waventuras, então ficou com os avós, que desta vez tinham disponibilidade para cuidar dele.

A previsão do tempo era chuva fraca, mas decidimos ir assim mesmo. Para nossa surpresa, fez um dia com céu perfeitamente limpo, coisa rara na terrinha, e ainda mais na região da serra. Outra coincidência é que o passeio mensal da maria-fumaça da ABPF/SC (de que já falei em outros posts) seria justamente ontem (só descobri isso dois dias antes, e obviamente fiquei bastante contente).

Grosso modo a ferrovia acompanha de perto a Estrada Geral do Rio Natal, exceto onde a estrada sobe rápido demais, caso em que a ferrovia tem de voltear para manter a declividade máxima de 3%. Grandes volteios acontecem apenas na área da estação abandonada, e no Rabo do Macaco.

No screenshot do Google Earth, pode-se ver a ferrovia indo de um lado a outro, quase dando um nó, em curvas perfeitamente redondas, enquanto a estrada segue reto no meio do mapa, de baixo para cima.

O atrativo de percorrer à pé este trecho da ferrovia a sua grande concentração de túneis (3 de 5), viadutos, muros de contenção, etc. Além de bonito, o único acesso ao sítio é pela própria ferrovia, então é um lugar desabitado, de natureza bastante preservada.

Na verdade, minha ambição é descer os 20 ou 25km da ferrovia à pé, mas esta vai ser uma atividade com logística mais difícil, e eu queria saber como andava meu preparo físico. Fazer uma versão "mini" da caminhada me daria algumas "respostas".

Um "probleminha" desse passeio é que teríamos de fazer uma volta completa: subir um desnível de 170m, e depois descer, para chegar novamente ao carro. Será que daríamos conta? Decidimos subir pelo trilho (cuja inclinação é menor) e descer pela estrada, andando um total de 8km. Como a ferrovia cruza novamente a estrada no meio do caminho, poderíamos desistir na metade do caminho e ainda assim tendo visitado metade do trecho...

Outro problema era o medo do túnel, já que da última vez nos acovardamos para entrar no túnel #1 (o mais longo do trecho). Mas descobrimos que os três túneis do Rabo do Macaco são tão curtos que se vê a luz do outro lado. As três lanternas que levamos não foram necessárias :) Durante a semana ficamos brincando, eu e a Ana, sobre quem iria pedir arrego primeiro, por medo ou por cansaço.

Felizmente para nossos egos, ninguém pediu arrego... Deve ter ajudado adotar a "dieta" dos tempos que eu andava de mountain bike: Coca-cola e salgadinhos (leia-se sacarose, água e sal).

Um risco bem real nesse tipo de passeio é o trem aparecer num ponto em que não se possa ficar ao lado. Além dos óbvios túneis e viadutos sem qualquer parapeito, há diversos cortes onde o trem passa "tirando faísca" do paredão. O único lugar onde seria possível uma pessoa se esconder, é na valeta de drenagem (e rezar para não haver algum vagão descarrilhado).

Como sabíamos que a maria-fumaça passaria pelo trecho duas vezes no mesmo horário em que estivéssemos andando, fomos bem ressabiados. Assim que paramos o carro para começar a caminhada, ouvimos o apito dela, bem distante. E agora, fica esperando ou prossegue? Como o trecho é um grande vale, ouve-se o apito do trem muito longe, e estimei que ainda faltava meia hora para ela chegar ali. E assim foi; subimos um bom trecho até encontrarmos um ameaçador corte estreito (com o apito cada vez mais próximo).

A ferrovia faz um laço tão apertado naquele ponto que pudemos ver a locomotiva descendo, por entre as árvores, mais acima, para então fazer a volta e passar por nós. Estaríamos livre do "perigo" por mais uma hora e meia, até o mesmo trem a vapor tornar a subir.

Como de costume, o capricho da ferrovia centenária impressionou. Confirmei a impressão de que estes túneis (feitos no barro e revestidos internamente com pedra) têm pouco morro por cima deles, e foram feitos para evitar cortes muito fundos, que desmoronariam o tempo todo.

Por outro lado, há cortes tão fundos em outros pontos que poderiam ser túneis, mas esses cortes são na pedra pura.

Passamos o primeiro cruzamento (3km de caminhada) e para nossa surpresa estávamos bem dispostos, e decidimos continuar pelo "laço oeste" do Rabo do Macaco. Esta parte fica sobre um topo de morro que "pertence" a outro vale, e estava ventando muito forte, de modo que não poderíamos ouvir o trem chegando, senão quando estivesse muito perto.

Como a ferrovia descreve um desenho semelhante a um pingo naquela parte, o negócio era andar rápido para estar na parte "de cima do pingo", onde seria fácil ouvir o trem subindo na "parte de baixo", a poucos metros em linha reta.

E foi bom ter apertado o passo, pois o "pesadelo" se confirmou: só ouvimos mesmo o trem quando estava muito perto. Isto foi exatamente antes de atravessarmos um longo viaduto. Ficamos esperando para fazer o filminho e tirar a foto mais batida do mundo: um trem passando em cima de uma ponte.

Novamente o vapor estava subindo com pressa (como no mês passado) e isto costuma significar que outro trem (de carga) está subindo também.

Foi exatamente o que aconteceu, mas tínhamos pelo menos meia hora sem a preocupação com tráfego, e era o tempo que precisávamos para terminar nossa peregrinação ferroviária. Logo que começamos a descer pela estrada de terra, para voltar ao carro, começamos a ouvir a buzina de um auto de linha (aqueles trenzinhos pequenos que transportam trabalhadores), provavelmente no sentido de descida.

O timing foi perfeito: chegamos ao carro exatamente a tempo de filmar o auto de linha.

No caminho de volta para casa, ouvimos um trem de carga subindo. Era realmente o meu dia. Paramos num cruzamento e filmamos também este trem da ALL.

Apesar do exercício físico fora do "padrão", não ficamos tão moídos quanto esperávamos. Para dizer a verdade, me senti mais disposto neste fim de dia do que em muitos outros passeios onde apenas dirigi o carro.

Aqui está o playlist dos filminhos que fiz ao longo do passeio:



Para completar o dia, ainda fui à igreja, onde fui empossado junto com os demais participantes do novo presbitério. Como já era esperado, a pastora engasgou ao ler meu sobrenome e foi aquela gargalhada no templo :) Depois, excelente jantar com os avós do Felix, e cama!
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