Hoje saiu uma reportagem da Folha sobre Jorginho, o assistente de Dunga, que teria se "queimado" junto aos jogadores, entre outros motivos por misturar religião com futebol e ter contratado amigos evangélicos, porém irrelevantes em sua profissão, para trabalhar com ele. Também teria proibido os jogadores de levarem familiares e passearem pelo país africano, enquanto ele mesmo fez ambas as coisas.
Não sei se este caso do Jorginho é mesmo verdade; existe uma sobrevalorização das mancadas desse gênero na imprensa, assim como há uma perseguição do mesmo gênero em relação ao governo Lula.
O que não quer dizer que os fatos levantados sobre um ou outro não sejam verdadeiros. Provavelmente são.
De maneira geral os crentes têm esse hábito de confiar a prori num "irmão". Não é um erro tão grave, pode ser talvez excesso de otimismo. A outra metade mais grave do erro é julgar e desqualificar outras pessoas por querelas morais. Achar que uma pessoa é incompetente ou má porque ela bebe cerveja, ou porque fuma, ou porque tem uma vida sexual. Ou simplesmente porque "não aceitou Jesus" -- ateus, católicos e evangélicos tradicionais incluídos neste último "defeito".
Outra mistura explosiva é religião e política. Esses dias vi uma entrevista do Garotinho onde este afirmava que "religião e política têm tudo a ver", e citou diversas figuras do Antigo Testamento, como Davi, Salomão e Ester, para fundamentar seu ponto.
Na hora pareceu coerente, até que lembrei da diretiva de São Paulo, que afirma categoricamente que governo e religião devem ser coisas separadas. Se Garotinho fosse judeu, o ponto dele teria alguma "validade" do ponto de vista bíblico, mas ele se diz cristão, então...
Alguém um dia definiu fundamentalismo como a mistura de religião com política. Não entendi muito bem; minha melhor interpretação dessa definição é que a "agenda" do fundamentalismo depende de infiltração na política para ser implementada, por isso a mistura está implícita.
Em tempo, eu escrevo tudo isto na qualidade de evangélico. Portanto, comentários raivosos dos ateus-praticantes do tipo "Deus não existe seu idiota @#%()$#" vão ser devidamente apagados, assim como os de crentes raivosos que me votarem ao inferno :)
A minha outra bronca com essas religiões fundamentalistas, essa já devidamente citada em outros posts, é o dirigismo da vida pessoal dos membros. Não é a priori errado que um clube imponha regras genéricas a seus membros, já que a participação nele é livre.
Mas é claro que, digamos, ser membro de uma marina é diferente de uma igreja. Ninguém diz que você vai para o inferno se deixar de participar de uma regata ou baile da marina.
Também não acho de todo errado se determinada igreja desaconselha seus membros a beber ou fumar. Até onde se sabe, não há vitaminas essenciais num ou noutro. Pelo contrário, evitar os dois é uma forma bastante eficiente e barata de preservar a saúde. É dirigismo, não gosto muito disso, mas ao menos é um dirigismo utilitário.
Mas é claro que não pára por aí. Esse dirigismo vai mais fundo, ele quer interferir em todos os aspectos da vida do crente. E o aspecto mais visível e talvez o mais devastador seja o incentivo ao consumismo dezarrazoado, é quebrar-se para comprar carro novo, apartamento bonito e TV de 50" para "mostrar que Jesus abençoou", sendo que talvez no fundo o sujeito preferisse um carro antigo, uma casa pequena, TV nenhuma e uma biblioteca de 5.000 volumes.
É sugerir que o lugar da mulher é em casa, escravizada ao trabalho doméstico, o que indiretamente acaba escravizando o marido pois este último terá muito pouco do que ganha para si mesmo, depois de sustentar a família e "fazer bonito" com carro e TV indesejados.
O consumismo e a ansiedade de status são "doenças" tipicamente estadunidenses. Em geral a troca de experiências entre culturas é positiva, desde que o sujeito tenha autonomia para usar a parte "boa" de sua cultura (e de outras) sem deixar-se escravizar pelas partes "ruins". É precisamente o que se espera das religiões em geral: ser uma referência que "zera" preconceitos e nos liberta das angústias culturais.
O "crentismo" falha duplamente neste aspecto: ele não alivia nossas angústias enquanto brasileiros, e ADICIONA as angústias do estadunidense: ansiedade de status, pânico moral e uma preocupação com pureza sexual completamente inédita em toda a história da humanidade, e mais importante: completamente desconectada com a realidade (Até a filha da Sarah Palin engravidou solteira, né? Nem por isso ela foi jogada na fogueira. Faça o que eu digo...)
Como eu disse antes, eu vejo "utilidade" num certo grau de dirigismo. É o que eu chamo de "almanaquização". Almanaque é aquele livro que tem respostas simples, curtas e prontas para qualquer coisa. Não acho errado que a religião seja o almanaque do homem médio.
Para ficar num exemplo, não é errado "sugerir" que as pessoas devessem evitar ter filhos fora do contexto de um casamento; está mais do que provado que é bom para uma criança ter mãe *e* pai. Agora, isto tem de ter limites. Quando o pastor começa a querer governar a posição sexual permitida entre um marido e uma mulher... acho que esse pastor é um voyeur, e pior, está adicionando uma angústia adicional e exótica num casal que já tem problemas suficientes.
O limite da "almanaquização" é a liberdade. Cristianismo é liberdade, é libertar o homem das suas angústias. É poder fazer tudo, evitando o que não convém. A "almanaquização" visa dar mais liberdade ao homem médio. Um abstêmio é mais livre que um alcoólatra; beber sem viciar-se é a liberdade ideal mas que infelizmente não está disponível a todos.