Esta é uma palavra fiel, e digna de toda a aceitação, que Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores, dos quais eu sou o pior. (1 Timóteo 1:15)
Com o versículo acima começo este texto, na intenção de sinalizar aos potenciais ofendidos que isto aqui é também uma autocrítica. Embora seja algo que eu tinha "na ponta da língua" para dizer a meus alunos desde a época em que dava aulas na faculdade. Nunca tive coragem, porque tenho a tendência de criticar em tom de catilinária.
Não é segredo que o Sul do Brasil é, no geral, uma região boa de se viver. Uma pedra-de-canto desta vantagem, que só percebi nitidamente depois de morar fora e voltar, é que há um mínimo de respeito mútuo, uma certa igualdade, ao menos no plano cultural. Entre o brasileiríssimo mantra "Você sabe com quem está falando?" e o antídoto estadunidense "Quem você pensa que é?" nós do Sul ficamos a meio caminho (*).
Há diversas teorias sobre o porquê desta diferença. Uma delas é a configuração da produção rural em minifúndios, em vez de latifúndios. Os imigrantes recebiam um lote de terra e eram proibidos de possuir escravos, o que quitava de plano dois mecanismos de estratificação: concentração rápida de meios de produção e, naturalmente, a existência de seres humanos na condição de escravos.
Ok, o minifúndio foi nossa salvação. Porém, isto não significa que é uma boa ideia continuar fazendo isso hoje.
Os descendentes de imigrantes que, por qualquer motivo, insistiram em continuar plantando batata numa propriedade minúscula, estão reduzidos à pobreza. As exceções são gente que trabalha na cidade e toca o sítio em paralelo.
Mais hilário é quando você pega um tipo desses, que vive no limite da miséria plantando banana no morro, mas que se acha melhor que o resto da humanidade porque tem um sobrenome alemão. Sense of entitlement. (Talvez a filha dele ainda tenha alguma chance a mais na vida por ser loira. Ainda. Se as morenas voltarem à moda, como estavam nos anos 70, aí ferrou de vez.)
Talvez o leitor já esteja desconfiado que o artigo não seja sobre a região Sul. De fato não é. É sobre insistir num modelo obsoleto, acreditando que as coisas nunca mudam, sendo escravo da sua própria cultura.
Ou então fazer o contrário: perceber o esgotamento do modelo e migrar. Como os imigrantes fizeram. Os descendentes de alemães e italianos se incomodaram um pouco com Getúlio Vargas, mas em compensação se safaram de duas guerras mundiais e um genocídio.
Infelizmente, o comodismo é uma atitude que eu percebia muito em sala de aula. Aquela famosa frase-modelo "Pra que preciso aprender isso se nunca vou usar?" que permite gerar um sem-número de perguntas pragmáticas: pra que aprender programação se eu trabalho em TI? Pra que aprender matemática se tem o Excel?
Não que meus alunos fossem gente preguiçosa. A quase totalidade trabalhava, muitos deles em empresas grandes, quiçá ganhando mais do que eu, o que acho ótimo. Mas freqüentavam a faculdade como quem vai na missa para agradar a sogra. Só despertava interesse aquilo que tinha aplicação imediata.
É o que chamo de meta-preguiça: a crença que o mundo vai continuar do jeito que está, para sempre. Então, pra quê buscar uma preparação acima da estritamente necessária ao dia-a-dia?
Não que meus alunos fossem especialmente meta-preguiçosos. Eram apenas o grupo social com quem eu tinha mais contato, quando observei estas coisas pela primeira vez. Hoje enxergo que este mal afeta quase todo mundo na terrinha.
Joinville em particular é uma cidade com abundância de emprego. Muitas indústrias, muitas empresas de informática, vida razoavelmente barata. Não há nem necessidade de formação muito apurada, nem tanta oportunidade de usá-la quem a possui.
Obviamente, abundância de oportunidades não é em si um mal. Mas acostuma mal as pessoas. E cria a ilusão de que as coisas vão ser assim pra sempre.
Na minha área de atuação em particular, informática, observo o fenômeno de haver inúmeras empresas de ERP, mas quase nenhuma de desenvolvimento avançado. Não havia nenhuma até esses dias, agora há umas poucas (um alô pros meus amigos Piero, Diego e Waldemar, os intrépidos pioneiros).
Aí a galera da informática se acomoda e fica desenvolvendo ERP, achando que a vida vai ser assim pra sempre.
Na verdade é um meta-comodismo, porque já trabalhei com ERP e cansei de me incomodar com clientes, usuários, alterações no sistema porque a Borracharia do Zé usa um formato de nota fiscal totalmente sui generis... quem é da área sabe o que estou falando.
Manter uma software house com ERP é um desafio quase NP-completo. O mantra destas empresas é "faturar horas". Rezar para as Borracharias do Zé pedirem relatórios em formatos estúpidos para gerar ordens de serviço.
Como eu disse numa palestra na FURB: enquanto vocês ficam faturando horinhas, o pessoal no Norte/Nordeste está se formando, com calma e com tempo; e depois vai escrever "aplicativozinhos" que vendem milhões de cópias. Com incentivo do governo em todas as fases.
Não se trata de preguiça. Trata-se de esperteza, de escolher um pouco o que vai fazer (**) e principalmente de preparar-se para poder escolher.
Esta aposição Sul-Nordeste foi uma tentativa de usar de psicologia, mexer com os brios do pessoal na palestra. (Não adiantou muito, eles nunca me chamaram de volta para ministrar um mini-curso, oferecido gratuitamente aliás.) Mas não deixa de ter um fundo de verdade.
Com um detalhe: quem faz desenvolvimento avançado, pode fazer isto em qualquer lugar do planeta. Quem desenvolve ERP pode não ter a mesma sorte, porque legislação fiscal ou trabalhista estúpidas como a do Brasil, só tem no Brasil (***). No mundo civilizado, a galera usa SAP, e mesmo no Brasil o SAP está ganhando terreno...
Para ser devastadoramente honesto, consigo apontar muito mais gente "fodona" em computação no Norte/Nordeste que no Sul. Isto tem muito a ver com a natureza dos meus últimos trabalhos, mas não deixa de ser uma evidência empírica.
Veja bem, não tenho nada contra quem desenvolve ERP. Se você faz isso direito, parabéns, porque você é exceção. A maioria dos sisteminhas de ERP é uma bosta. Na próxima vez que for a uma loja ou restaurante, cronometre quanto tempo o atendente leva para emitir a notinha e passar o cartão. Porque o sistema é desenvolvido por gente que não sabe nada, não quer saber e tem raiva de quem sabe.
O mesmo vale para qualquer outra atividade "cômoda". Você trabalha em indústria? Está vendo as indústrias do mundo todo irem para a China? Pois é... Se quiser continuar industrial ou industriário, melhor considerar as possibilidades. Até mesmo ir para a China, tem brasileiros se dando muito bem lá em posições de gerência.
Ou então imaginar que as empresas locais sempre vão precisar daquele mesmo tipo de mão-de-obra, qualificada pero no mucho. Um belo dia, elas precisarão de gente mais qualificada e os locais não estarão no par do campo. Num dia a empresa pediu pro cara fazer hora extra e deixar o estudo de lado, no outro ela demite-o para contratar um "imigrante" qualificado de SP.
Joinville está recebendo uma legião de imigrantes do Sudeste, geralmente pessoas com excelente formação. Talvez o "doomsday" já tenha chegado e ninguém viu.
Não que isto me incomode. Nem poderia. Também eu já fui um "imigrante" em Recife. O que me incomoda é ver que pessoas próximas -- alunos, parentes, amigos -- tendo nascido neste cantinho agradável do mundo, não construíram nada em cima disto. Erro que eu mesmo cometi, intermitentemente.
E já que acabei falando de regiões A ou B, deixo claro que não sou signatário daquele "white guilt" que acomete alguns sulistas, principalmente os de esquerda. Para estes, haverá um próximo artigo em breve; não perdem por esperar :) Tenho imenso orgulho do status quo da região. Mas o futuro precisa de atenção.
(*) É um valor que infelizmente os estadunidenses estão pondo a perder. Tocqueville deve estar muito chateado.
(**) Isso me lembra uma expressão que ouvi inúmeras vezes: "Escolher trabalho é coisa de vadio."
(***) Eu não ia perder a oportunidade de pregar meu evangelho libertário, mesmo en passant.