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Usando monitor como TV?

2012.10.27

Este artigo expressa a opinião do autor na época da sua redação. Não há qualquer garantia de exatidão, ineditismo ou atualidade nos conteúdos. É proibida a cópia na íntegra. A citação de trechos é permitida mediante referência ao autor e este sítio de origem.

Há muito tempo estava para comprar um monitor. Por ser míope e preferir trabalhar sem óculos, preferiria um monitor grande, com resolução relativamente baixa, o que significa uma baixa densidade de pixels (DPI). É um requisito bastante incomum -- a maioria das pessoas prefere monitores com tamanho e DPI igualmente grandes.

Por exemplo, há monitores Full HD (1920x1080 pixels) de 19 polegadas, 21", 22", 24", mais recentemente 27". Monitores maiores que isso tendem a possuir mais pixels; o caríssimo Cinema 30" da Apple é 2560x1600. Enquanto isso, acham-se televisões Full HD de 32" até 70" em qualquer supermercado.

Então é quase óbvio que minha escolha deveria recair sobre uma TV, e não sobre um monitor. Afinal, sendo ambos os aparelhos dotados de um display LCD e digitais, não deveria haver problemas. Certo?

Na verdade eu já tencionava aproveitar uma TV LCD 32" (720p, não Full HD) que possuo em casa. A muié quer comprar uma de 42" para ver a novela das seis em toda a sua glória analógica (*) e estava torcendo para eu me apoderar logo da TV.

Infelizmente esta TV em questão possui um painel LCD de 1366x768 pixels físicos, enquanto a resolução 720p equivale a 1280x720. A TV transforma (escalona) a imagem do formato virtual (720p) para o LCD físico. Isto funciona perfeitamente para imagens fotográficas e filmes, porém distorce imagens com detalhes muito finos, como letras ou pontilhados.

Para mostrar como é esta distorção, fotografei de perto uma região de tela LCD. A parte superior da região exibe controles do browser. A parte inferior exibe uma padronagem xadrez bem fininha: um pixel preto, outro branco, outro preto e assim por diante.

Na primeira foto, abaixo, a resolução física do display e a resolução virtual são exatamente iguais, e o monitor está configurado para não fazer nenhuma transformação. Podemos ver cada pixel individual (branco ou preto) do xadrez:

Padronagem de teste, com monitor na resolução nativa e computador na mesma resolução

Já na segunda foto, abaixo, a resolução física do display é ligeiramente menor que a resolução virtual. Note que os controles do browser continuam bem legíveis, mas o padrão xadrez fininho virou um "xadrezão", parecendo uma toalha de mesa:

Padronagem de teste, com monitor em resolução não-nativa e/ou computador em resolução diferente da nativa

O defeito da segunda foto é conhecido como moiré ou batimento.

Note que seu monitor ou seu browser podem interferir com as imagens acima, adicionando ou escondendo o moiré. Se você estiver enxergando coisas diferentes do que eu descrevi, tente clicar na imagem para ver o original, em tamanho natural. (Além disso, a própria câmera, sendo um dispositivo digital, também "atrapalhou-se" ao fazer estas fotos. As fotos acima são as melhores de diversas tentativas.)

A padronagem xadrez foi gerada por um teste de monitor, denominado "1:1 pixelmapping", que pode ser encontrado nesta página.

Também há esta outra página com testes mais elaborados. Numa verificação rápida, os testes "clock and phase", "sharpness" e "inversion (pixel-walk)" parecem servir para evidenciar o mesmo problema.

Minha TV de 32" exibiu este defeito de moiré e também distorcia caracteres. Ajustes de "underscan" no computador quase conseguiam eliminar o moiré, mas só quase. Nunca totalmente.

O contrário também pode acontecer: se a imagem estiver perfeitamente enquadrada, um ajuste de "underscan" causa moiré, e não será culpa da tela. Foi justamente assim que provoquei o moiré para fazer a segunda foto.

(Para ser bem honesto, me dá náuseas constatar que ainda existem essas bossas de underscan e overscan em video digital. O fantasma da TV analógica ainda assombra!)

Quem trabalha com informática, muitas vezes precisa enxergar e manipular detalhes com tamanho de apenas 1 pixel. Além disso, alguns efeitos como suavização de contornos das letras dependem da premissa "1 pixel virtual = 1 pixel físico" para funcionar direito. Usar esta TV como monitor seria fonte de aborrecimento. Nada de TV de 40" pra muié.

Bem, isto foi minha TV caseira. Ao que parece, TVs 720p tendem a usar painéis de 1366x768. Mas talvez os modelos Full HD não sofram deste problema?

Coincidiu que no dia em que estava realmente pesquisando sobre isto, o nosso "5A" substituto, o Osvaldo Santana, estava no #d00dz. Ele me alertou que a maioria das TVs transforma a imagem, resutando em moiré ou perda de detalhes.

Taí algo que não se pode testar comprando uma TV pela Internet. Meti o notebook e um adaptador HDMI na mochila, e fui à loja conferir.

Infelizmente, todos os modelos de TV 32" que testei apresentaram moiré. Mesmo configurando a proporção da tela para "Just Scan" em vez de 16:9 (**) o problema permaneceu.

É possível que alguma TV não tenha passado no teste por ignorância minha e/ou do vendedor, por conta de alguma configuração obscura. Mas, se a imagem preenche completamente o painel e ainda assim o moiré se manifesta, o que mais poderia estar errado?

Também não duvido que TVs Full HD de alta qualidade passem neste teste, mas aí cai fora da minha faixa de tamanho e preço. Maior que 32" é difícil de usar na mesa, e mais caro que R$ 3 mil sugere partir pra um Cinema Display :)

No fim acabei optando por um Monitor/TV de 27" da LG, modelo M2752. A loja possuía os modelos 27" LG e Samsung. Ambos passaram no teste "xadrez" (desde que configurados corretamente para "Just Scan"). O Samsung é fisicamente mais bonito, mas a imagem do LG me agradou um pouco mais.

É uma pena, porque eu realmente queria uma tela de 32" (***) e todas as TVs mostraram imagens mais "belas" que os monitores. Mais cores, mais contraste, mais tudo. Se o critério fosse a exibição de fotografias ou filmes, ganhariam fácil.

Já que escrevi isso tudo, não custa falar um pouco do monitor LG M2752.

Ele possui dois defeitos bem óbvios: o suporte tem um ar barato, e precisa ser cuidadosamente configurado para render uma boa imagem. Um usuário leigo, que espera funcionamento "out of the box", vai simplesmente achar que o monitor é de má qualidade.

Teria sido mais inteligente rotular uma das entradas HDMI como "computador", a outra como "DVD", atribuindo uma configuração padrão mais apropriada a cada uma. Enfim, coisinhas que a Apple nunca deixaria passar :)

Uma vez superada a confusa configuração, o monitor rende uma imagem bastante decente, obtendo resultados muito bons nos testes desta página, já mencionada.

Até por ser um híbrido de TV e monitor, o M2752 tem entrada e saída de áudio. Um sonzinho safado... É melhor que o som de um notebook, apenas. A saída de fone de ouvido é ainda pior.

O preço do monitor é compatível com o nicho que ocupa: mais caro que os monitores Full HD de 24", um pouco mais barato que uma TV de 32" comum.

Notas

(*) É possível receber TV Globo digital via parabólica, mas isto demanda um receptor especial, que possui GPS e bloqueia a recepção em "áreas próximas" das repetidoras. Curioso que aqui onde moro é considerado "área próxima" mas absolutamente todo mundo usa parabólica. A alternativa é uma antena de alto ganho a 15m de altura -- que não vai durar muito, já que raio e ventania é ocorrência semanal por aqui.

(**) A recomendação genérica que se encontra na Internet é mudar o formato da imagem para "Just Scan". A ideia é que a TV use exatamente o formato enviado pelo computador e espalhe a imagem pelo LCD inteiro. Se os dois tiverem a mesma resolução, não deveria haver defeitos de moiré na imagem.

(***) Pode parecer exagero mas no monitor de 27" que comprei, que já é enorme, um pixel tem apenas 0,33mm de lado. Num notebook comum, um pixel tem 0,22mm. O pixel do monitor é apenas 50% maior (linearmente) que do notebook. Está certo que a área do primeiro é 125% maior que do segundo.


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